A fonte bíblica: o Evangelho de Mateus
A única referência direta aos Magos encontra-se no Evangelho segundo Mateus, capítulo 2, versículos 1 a 12:
“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém” (Mt 2,1).
O texto bíblico não fornece detalhes como número exato, nomes ou condição real. Mateus chama-os simplesmente de magoi (em grego), termo que designava sábios, astrólogos ou estudiosos dos astros, comuns nas regiões da Pérsia, Babilônia ou Média.
Quem eram os Magos?
O significado do termo magos
Nos tempos atuais, graças a diversos personagens da literatura e do cinema, o termo "mago" adquiriu um significado estritamente ligado a "feitiçaria".. Entretanto, no tempo do relato bíblico, os magos não eram feiticeiros, mas homens instruídos, ligados ao estudo da astronomia, da religião e da sabedoria oriental. No contexto bíblico, são apresentados como homens atentos aos sinais divinos na criação.
Segundo a exegese moderna, eles provavelmente pertenciam a tradições religiosas não judaicas, o que reforça o caráter universal da revelação de Cristo.
Reis ou sábios?
A ideia de que os Magos eram reis não está explicitamente na Bíblia. Essa interpretação surge posteriormente, influenciada por textos do Antigo Testamento, como:
- Salmo 72,10-11: “Os reis de Társis e das ilhas oferecerão presentes”.
- Isaías 60,3: “As nações caminharão à tua luz, e os reis, ao brilho do teu nascer”.
A tradição cristã passou a vê-los como reis para enfatizar que Cristo é reconhecido como Senhor por todas as nações e autoridades da terra.
O número e os nomes dos Reis Magos
O Evangelho não informa quantos eram os Magos. A tradição fixou o número em três, provavelmente por causa dos três presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2,11).
A partir do século VI, consolidaram-se os nomes:
- Melquior;
- Gaspar;
- Baltasar.
Esses nomes aparecem em textos apócrifos e na tradição litúrgica, especialmente no Ocidente, sem caráter histórico-dogmático, mas catequético e simbólico.
A Origem e o Significado dos Nomes dos Reis Magos
A ausência de nomes no texto bíblico
O Evangelho segundo Mateus, única fonte canônica que menciona os Magos (cf. Mt 2,1–12), não informa seus nomes, número ou origem precisa. Essa sobriedade narrativa é típica do estilo mateano, que privilegia o significado teológico do episódio, e não detalhes biográficos.
Os nomes dos "Reis Magos surgem fora do texto bíblico, sobretudo a partir da tradição patrística, de escritos apócrifos e da transmissão catequética da Igreja, especialmente entre os séculos III e VI.
Melquior
Origem do nome: O nome Melquior (ou Melchior) tem provável origem semítica, derivando do hebraico Malkî-’ôr ou Melek-’ôr, e significa “Meu rei é luz” ou “Rei da luz”.
Sentido teológico: Melquior simboliza o reconhecimento de Cristo como o Rei messiânico, a luz prometida às nações (cf. Is 9,1; Jo 8,12). Tradicionalmente, é representado como um homem idoso, indicando a sabedoria acumulada e a expectativa antiga da salvação.
Gaspar
Origem do nome: Gaspar (ou Caspar) tem provável origem persa, a partir do termo Ganzabara. e seu significado é algo como: “Guardião do tesouro” ou “aquele que traz o tesouro”.
Sentido teológico: Gaspar representa a entrega dos bens mais preciosos ao verdadeiro Tesouro que é Cristo (cf. Mt 6,21). Ele está frequentemente associado à oferta do incenso, indicando a divindade de Jesus e a adoração devida somente a Deus.
Baltasar
Origem do nome: Baltasar deriva do acádico-babilônico Bel-šar-uṣur (cf. Dn 5,1), nome também conhecido do rei babilônico Baltazar. O significado é: “Que Bel proteja o rei” ou “Deus protege o rei”.
Sentido teológico: No contexto cristão, o nome é reinterpretado à luz da fé monoteísta: não mais um deus pagão, mas o Deus verdadeiro que protege o Rei-Menino. Baltasar costuma ser representado como um jovem ou como um homem de pele negra, simbolizando a universalidade da salvação e a inclusão de todos os povos.
Dimensão simbólica dos três Reis Magos
A tradição cristã atribuiu aos três Magos uma forte carga simbólica:
- Representam os três continentes conhecidos na Antiguidade: Europa, Ásia e África.
- Simbolizam as três idades do homem: juventude, maturidade e velhice.
- Expressam a totalidade da humanidade que se dirige a Cristo.
Essa leitura não pretende ser histórica, mas teológica e catequética, ajudando a Igreja a anunciar que Jesus veio para todos.
Valor teológico e pastoral dos nomes
Embora não façam parte do depósito da fé nem tenham caráter dogmático, os nomes dos Reis Magos desempenham um papel importante na catequese, na liturgia e na arte cristã. Eles personalizam a busca humana por Deus e permitem que o fiel se identifique com o caminho espiritual dos Magos: observar, discernir, partir, adorar e voltar transformado.
A estrela e o caminho da fé
A estrela mencionada por Mateus (Mt 2,2.9-10) tem sido objeto de diversas interpretações:
- Fenômeno astronômico (conjunções planetárias);
- Sinal sobrenatural;
- Linguagem simbólica teológica
Do ponto de vista teológico, a estrela representa a luz da revelação divina que guia os povos ao encontro de Cristo. Ela conduz os Magos até Jerusalém, mas desaparece, obrigando-os a recorrer às Escrituras (cf. Mt 2,5-6), mostrando que a criação e a Palavra caminham juntas na revelação de Deus.
Os presentes e seu significado teológico
Os dons oferecidos pelos Magos têm profundo valor simbólico:
- Ouro: reconhece a realeza de Jesus.
- Incenso: reconhece sua divindade, pois o incenso era reservado ao culto.
- Mirra: anuncia sua humanidade e seu sofrimento, pois era usada no embalsamamento.
Esses presentes revelam, de forma antecipada, o mistério completo de Cristo: verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Rei e Servo sofredor.
A Epifania: Cristo revelado às nações
O episódio dos Magos fundamenta a celebração da Epifania, solenidade que recorda a manifestação de Jesus como Salvador universal. Enquanto os pastores representam Israel pobre e fiel, os Magos simbolizam os povos pagãos que acolhem a salvação.
A reação de Herodes, marcada pelo medo e pela violência, contrasta com a atitude de busca, adoração e obediência dos Magos, que retornam por outro caminho após o encontro com o Menino (Mt 2,12), símbolo de uma vida transformada pelo encontro com Cristo.
Os Reis Magos, embora mencionados brevemente, ocupam um papel essencial na teologia cristã. Eles expressam a universalidade da salvação, a busca sincera pela verdade e a resposta de fé à revelação divina. Mais do que personagens históricos, são figuras teológicas que convidam o cristão a deixar-se guiar pela luz de Deus e a oferecer a própria vida como dom ao Cristo que se manifesta ao mundo.
Referências Bibliográficas:
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